Arquivo do mês: novembro 2012

Programa Toopedalando

O que acontece com as bicicletas roubadas?

Por Ciclismo e Cicloativismo

Aqui no Priceonomics, estamos encucados com o assunto “roubo de bicicletas”. Simplificando a coisa, por que diabos tantas bicicletas são roubadas? Olhando superficialmente, parece um crime com um “retorno financeiro” muito limitado para o ladrão, e ainda assim o ritmo do roubo de bicicletas é galopante em cidades como San Francisco (onde o Priceonomics está baseado). Mas então qual é o incentivo econômico para os ladrões de bicicleta que sustenta a difusão dos roubos de bicicletas? Será que essa é, na verdade, uma maneira eficiente dos criminosos ganharem dinheiro?

 

É como se roubar bicicletas “não parecesse ser” uma forma lucrativa de atividade criminosa. Bicicletas usadas não são particularmente rentáveis nem têm tanta atração em comparação com outras coisas que se podem roubar (telefones, eletrônicos, drogas…). Ainda ssim, as bicicletas continuam a ser roubadas, portanto, devem gerar “renda” suficiente para os ladrões. O que acontece com essas bikes roubadas e como elas se transformam em renda para os criminosos?

O fundo do problema

Em San Francisco, se você deixar sua bicicleta destrancada, ela será roubada. Se você usar um cadeado normal de segurança para proteger a sua bicicleta, em algum momento ela será roubada mesmo assim. A menos que você tranque sua bike com aqueles cadeados medievais, sua bike vai ser roubada nas ruas da maioria das cidades americanas. E mesmo se você tomar essas precauções fortes, ainda assim corre o risco de ter a bike roubada.

De acordo com o Registro Nacional de Bicicletas (National Bike Registry) e o FBI, cerca de U$ 350 milhões em bicicletas são roubadas nos Estados Unidos a cada ano. Além do custo financeiro do crime, é de partir o coração descobrir que alguém furtou sua bike.
Ciclistas amam suas bikes!

 

Como uma mãe escreveu, em uma carta aberta para o ladrão levou a bicicleta de seu filho de doze anos:

CJ demorou umas três semanas para finalmente escolher uma bicicleta. Nós olhamos uma bicicleta marrom na Costco, que até levamos para casa mas devolvemos no dia seguinte, e uma azul na Target. Mas seu coração foi fisgado por uma Trek verde e preta que ele viu na Libertyville Cyclery. CJ sabia que era mais do que queria gastar, mas o menino nunca havia pedido nada antes. Entenda isso, CJ teve que considerar o fato de seu pai estar desempregado há 18 meses e ele sabia que o dinheiro era curto. Além disso, ele é apenas um garoto pensativo.

CJ não ia de bicicleta para a escola se houvesse previsão de chuva e ele sempre colocava cadeado nela. Você deve ter notado que ela não tinha sequer um arranhão. CJ tratava a bike dele muito bem e sempre usava o pezinho de apoio.

Você precisa saber que CJ chorou por causa da bicicleta e que ele ainda está muito triste. Ele teve que aprender uma dura lição de vida mais cedo do que eu gostaria – que há algumas pessoas no mundo que são apenas e simplesmente más. Agora você já sabe um pouco sobre meu filho realmente incrível e a história por trás de sua Mountain Bike Trek 3500 verde e preto, de 16 polegadas.

UMA TEORIA ECONÔMICA SOBRE ROUBOS DE BICICLETAS

Em 1968, o economista Gary Becker (de Chicago) introduziu a noção de que o comportamento criminoso podia ser “modelado” usando as teorias econômicas convencionais. Criminosos são nada mais que atores racionais (pessoas) que analisam cuidadosamente o custo/benefício de cometer um determinado crime. O potencial de receita auferida é maior que a probabilidade se ser apanhado? Ou, como comentou o personagem de Emile Hirsch no filme “Show de Vizinha”, o suco vale a espremida?

Atividades criminosas, especialmente as que pressupõem um claro ganho econômico como roubo/furto podem, portanto, ser modeladas numa curva de recompensa e risco, como qualquer decisão financeira. Se você vai executar um golpe com um grande risco, é necessário que esse golpe dê um grande “resultado” financeiro, que compense o risco. Já os crimes que geram, para o criminoso, um “retorno” maior que a possibilidade ponderada de ser pego, criam um “valor esperado” (como uma aplicação financeira). Os criminosos tentam achar “almoços grátis” (galinha morta, na gíria brasileira de comerciantes) onde podem gerar receita com pouco ou nenhhum risco. O governo deve responder aumentando a pena para esse determinado tipo de crime, para que haja novamente “equilíbrio” e a atividade criminosa diminua retornando aos patamares “ótimos” (N.do T. – Aumentar a pena não significa que o risco para os criminosos aumente automaticamente porque para isso ele ainda precisaria ser preso, porém, se aumentar o policiamento ou vigilância remota a história muda).

 

Risco para o Criminoso
Possibilidade ponderada de ser apanhado

Com base neste quadro de risco-retorno para o crime, começa a ficar claro porque há tantos furtos/roubos de bicicleta. Para efeitos práticos, roubar uma bicicleta é um crime praticamente livre de riscos. Na real, o que acontece é que a chance de ser pego roubando uma bike é quase zero (VEJA AQUI), e se for as consequências são mínimas.

Há alguns casos de jornalistas que tiveram suas bikes furtadas e depois correram atrás para tentar encontrar suas bikes e capturar os ladrões. Em cada caso acabaram por entender, através das polícias locais, que a pena por roubar uma bicicleta é geralmente nenhuma.

“Tornamos tudo fácil para eles: o promotor não pode fazer acusações duras. Todos os ladrões já pegos ganharam liberdade condicional. Isso é tratado como crime pequeno”.

“Não podemos deslocar seis pessoas de um (caso de) assassinato para investigar um roubo de bicicleta.”

Furto de bicicleta é essencialmente um crime sem risco. Para um criminoso, é a realização de uma fantasia: o crime ideal. Se o Goldman Sachs não tivesse mercados mais lucrativos para explorar, eles poderiam se dedicar a fazer corretagem no mercado de bikes (N. do T – “arbitraging” no texto original: significando a compra de moeda, títulos, ou mercadorias em um mercado de revenda imediata em outros, a fim de lucrar com os preços desiguais).

O QUE ACONTECE COM AS BICICLETAS ROUBADAS?

Não é apenas porque o risco de um crime é quase zero que um criminoso vai se envolver. Se fosse esse o caso, os ladrões iriam roubar flores em casas de idosos ou jornais velhos. Tem que haver demanda de clientes e um mercado certo para o “produto” para que o criminoso possa transformar o furto/roubo em receita. Assim, como exatamente faz um criminoso para transformar a bicicleta roubada em dinheiro?

Decidimos consultar o que já havia sido publicado em termos de estudos sobre bikes roubadas e, também, bicicletarias e experts em San Francisco, a fim de ter uma idéia geral mais apurada sobre quem rouba bicicletas e que fim as bikes roubadas tem.

 

“Onde as bikes são vendidas”

LADRÕES DE BICICLETA AMADORES – Ladrões de bicicleta amadores vendem as bikes na rua mesmo ou em alguns locais específicos. São geralmente dependentes de drogas, moradores de rua e/ou pessoas sem instrução nem perspectiva nenhuma.

O Sargento Joe McKolsky, especialista em roubos de bikes do SFPD (San Francisco Police Departament), estima que a esmagadora maioria dos roubos de bicicletas são movidas por viciados em drogas que acabam negociando as bikes roubadas à razão de 5 a 10 centavos por dólar (N. do T. – uma bicicleta que custou U$ 100 renderia para o ladrão algo entre 5 e 10 dólares). Qualquer bike serve, desde uma simples de U$ 50 até uma bike caprichada de U$ 2.000. Esse tipo de ladrão amador é oportunista. Age quando encontra uma bicicleta fácil de levar, que não estão não seguras, para conseguir algum dinheiro rápido.

“As bicicletas são um dos quatro produtos comuns das ruas. Os outros são dinheiro, drogas, sexo… e você praticamente pode trocar um pelo outro.”

Em San Francisco essas bikes roubadas por amadores acabam nas ruas, no cruzamento da 7th Street com a Market Street, em frente ao restaurante “Carl’ s Jr”. Conversamos com Brian Smith, co-proprietário da Huckleberry Bicycles, que está localizado em frente a esse cruzamento. Ele confirmou que não é incomum que as pessoas entram na loja tendo acabado de comprar uma bicicleta na rua por U$ 50, obviamente roubadas.

LADRÕES PROFISSIONAIS – Na outra extremidade do espectro estão os ladrões profissionais de bicicleta. Em vez de agirem de maneira oportunista visando bicicletas mal cuidadas, esses ladrões têm como alvo as bicicletas mais “top de linha”. Eles têm as ferramentas apropriadas para cortar u-locks e buscam revender as bikes roubadas por um preço próximo de seu “valor justo de mercado”. Esses ladrões conseguem as bicicletas e, em seguida, as colocam para venda no mercado on-line para maximizar o preço de venda.

Perguntamos a Aubrey Hoermann, proprietário da loja de bicicletas Refried Cyles na Missão, sobre ladrões profissionais de bicicletas e onde/como eles poderiam vender suas mercadorias:

Tem que dar um jeito de vendê-lo em outra cidade. Meu palpite é que roubam bikes suficientes para fazer valer a pena fazer uma viagem a algum outro lugar como Los Angeles e depois anunciam no Craigslist (site de classificados locais On-Line). Se você tem cerca de 10 bikes, provavelmente a viagem vale a pena.

Outro proprietário de loja de bicicletas, que pediu para não ser identificado, acrescentou:

A maioria desses caras são viciados em drogas, mas muitos deles são profissionais. Você pode cortar uma u-lock em um minuto e meio, com as ferramentas certas. Roube três bikes e venda em Los Angeles por U$ 1.500 cada e você está ganhando um bom dinheiro.

Essencialmente, os ladrões estão maximizando a receita por viagem (carga) em um mercado em que eles podem vender as bicicletas roubadas sem maiores sustos. No passado, eles poderiam vendê-las localmente mas, de acordo com Aubrey, esta possibilidade está cada vez mais difícil:

Não dá mais para você simplesmente roubar uma bicicleta e anunciar no CraigsList (site de classificados locais) de São Francisco. É muito conhecido e pesauisado, e daria muito trabalho alterar a bicicleta para tentar vender lá. Eu era “bike messenger” e se alguém tivesse a bike roubada iria dar uma olhada na 7th Street com a Market Street. Agora é conhecido DEMAIS como ponto de venda de bikes (possivelmente roubadas) para tentar vender por lá.

Cada vez mais, quando uma bicicleta é roubada, as vítimas sabem onde ir para verificar localmente (Craigslist, 7th Street com a Market Street, o Oakland Flea Market) o que torna difícil vender bicicletas roubadas nesses locais. Outro fator: bicicletas não são ainda tão populares e também porque não vale a pena o esforço para personalizar e disfarçar a bike a fim de vender no mercado local (ladrões querem dinheiro fácil, não querem ter trabalho).

Devido a esta dinâmica, Aubrey conclui que o roubo profissional de bicicletas está substituindo o roubo amador como forma predominante desse crime. Enquanto que a polícia é complicado/difícil enquadrar e penalizar os ladrões de bicicleta, para as pessoas comuns que têm suas bikes roubaas está se tornando mais fácil investigar, identificar ladrões e até localizar/recuperar a bicicleta roubada. Está ficando difícil para um ladrão amador comum roubar “casualmente” uma bicicleta e sair na boa toda hora.

Existe um Keyser Söze do submundo de roubos de Bike?
(personagem do filme Os Suspeitos – nele, Keyser Söze é o bandido super-super, muito astuto e capaz de matar própria família para não ser subjugado)

O roubo de bikes executado de modo profissional cresce de forma galopante. Mas existirá uma espécie de “mente criminosa” orquestrando essas ações, levando as bikes roubadas em uma cidade para outra para serem revendidas? Em última análise, não há nenhuma evidência de que exista um “Rei do Crime” das bikes.

As maiores apreensões já registrados não são nada monumentais, na verdade. Em San Francisco, recentemente, um adolescente local foi preso por roubar mais de cem bicicletas (encontradas em sua casa). E não faziam parte de nenhum esquema sofisticado de roubos. Estavam sendo revendidos no Mercado de Pulgas da Oakland (Oakland Flea Market).

Em Toronto, um dono de uma loja mentalmente desequilibrado foi apanhado com cerca de 2.700 bikes roubadas – mas não para vender porque estavam apenas criando ferrugem!

Cérebros criminosos costumam valorizar seu tempo e recursos, e roubo de bicicleta não é de fato rentável. Os custos de transporte e baixa taxa de densidade de valor do produto acabam por desencorajar (felizmente) a “economia” e o comércio de bicicletas roubadas. O dono de loja de bikes que entrevistamos e que pediu anonimato conclui:

Você deveria estar no negócio de prostituição ou drogas se você estivesse atrás de um esquema criminoso que fosse rentável de fato. Roubar bicicletas não dá dinheiro de verdade. Esses ladrões de bikes, mesmo os profissionais, são “operadores” pequenos. Ou são apenas idiotas.

 

Conclusão

Em última análise, esse é o ponto todos parecem concordar: Ladrões de bicicleta são idiotas. Para todo o resto, apesar de haver pouco consenso e/ou sólidas evidências, há algumas coisas que são claras:

1 – É muito simples roubar uma bicicleta e as conseqüências são perto de zero.
2 – Você pode revender bicicletas roubadas.
3 – Obter um bom preço p/ bike roubada exigirá uma boa dose de trabalho. Essa quantidade de trabalho é o que impede que o roubo de bicicletas prospere.
4 – Cérebros criminosos estabelecem um “valor” (custo de trabalho) para seu tempo e não vão sair brincando de arrastar peças de metal com borracha por aí, e cuja demanda é baixa.

Então, se a sua bike foi roubada, você pode pelo menos se consolar com o fato de que o comércio ilícito de bicicleta não é uma maneira muito fácil de fazer um monte de dinheiro. Mas isso provavelmente não vai fazer você se sentir melhor.

Texto Priceonomics
http://blog.priceonomics.com/post/30393216796/what-happens-to-stolen-bicycles

Texto da carta ao ladrão
http://libertyville.suntimes.com/opinions/letters/13116252-474/owner-heartbroken-over-stolen-bike.html


 

 

O urbanismo contra-ataca

Por ESTADÃO

“Uma cidade se expressa, vibra, vive. E só é feita com gente na rua”, diz ex-prefeito de Bogotá.

Notícias de uma guerra “não declarada”: mais de 200 mortos, entre civis (com ou sem ficha criminal) e policiais militares desde o início de outubro. Mas nem adianta passar a régua, pois a conta não fecha aí. Na madrugada seguinte, mais um punhado de gente cai na vala comum das páginas da metrópole e vira estatística. De um lado, o “salve geral” disparado pelo Primeiro Comando da Capital em agosto. De outro, a tropa do governo. No fogo cruzado, a cidade.

Difícil dizer que se trata de um confronto “velado” entre PM e PCC. Nessa semana, observadores da imprensa internacional miraram São Paulo como uma “cidade sangrenta”. Foram reportagens no Clarín, El País, Le Monde, The Economist, The Guardian, The Wall Street Journal. Até a Al Jazeera reportou a onda de violência paulistana, ao passo que The New York Times questionou a garantia de segurança no Brasil durante o mundial de 2014, um provocativo “imagine na Copa…” para gringo ler.

“Mas segurança não é só assunto de polícia. Tem a ver com urbanismo, mobilidade e cultura”, critica Enrique Peñalosa, economista e historiador colombiano formado pela Universidade Duke, na Carolina do Norte, e P.h.D. pela Universidade de Paris. Para Peñalosa, para conter a violência urbana é preciso articular inteligência policial e intervenções nos campos do planejamento urbano e projetos socioculturais.

Prefeito de Bogotá entre 1998 e 2011, o urbanista transformou a capital colombiana com ações focadas em mobilidade e sustentabilidade, reduzindo drasticamente o índice de homicídios na cidade, antes considerada uma das mais violentas da América Latina. Já fez conferências em universidades como USP, PUC-RJ, Princeton, London School of Economics, Harvard, Chicago e Colúmbia, e assessorou governos na Ásia, África, Américas e Europa com estratégias e políticas urbanas. Neste ano, visitou São Paulo e Porto Alegre, onde participou do Fronteiras do Pensamento, em junho.

“Uma cidade se expressa, vibra, vive. É feita de gente na rua”, diz ao Aliás. “O papel do Estado é estar presente, em todos os cantos da cidade. Que não haja rincões que fiquem à margem. Se o Estado não respeita a vida humana, por que os bandidos o fariam?”, questiona. “Devemos mostrar símbolos de igualdade e de democracia. São bibliotecas, ciclovias, colégios, parques, ruas iluminadas. E, principalmente, gente ocupando esses espaços públicos”, destaca. Seguindo as ideias de Enrique Peñalosa, talvez falte mostrar, sem pieguice, que ainda existe amor em SP.

São Paulo está vivendo uma onda de violência que obteve repercussão internacional. Que paralelo podemos traçar com Bogotá, que já foi considerada uma das cidades mais violentas da América Latina?

Posso comentar a experiência de Bogotá, onde a segurança melhorou desde o fim da década de 1990. Essa melhoria ocorreu na capital, antes de ocorrer no país como um todo. Não foi consequência de uma mudança diretamente relacionada às políticas do presidente Álvaro Uribe, mas de uma série de medidas do poder municipal. Não há fórmulas fechadas, mas posso propor teorias: é a cidade. A chave é a própria cidade.

Como assim?

A cidade se expressa, vibra, vive. E uma cidade só se faz com gente na rua. Mas, para isso, as pessoas precisam se sentir seguras nas ruas. Os cidadãos precisam sentir que há legitimidade – o que é muito importante, mas altamente subjetivo. Explico: o Estado precisa ser considerado legítimo pelos cidadãos. É corrupto? É íntegro? Está dedicado a atender às necessidades dos mais vulneráveis para construir, de alguma maneira, uma sociedade mais igualitária? Se há legitimidade, os cidadãos tendem a compreender e cumprir determinadas normas, reportar e pedir punição aos que violam essas normas. Prefiro ilustrar essa história assim: há 15 anos, dizia-se muito a expressão “cójalo, cójalo, suéltelo, suéltelo” em Bogotá. Exemplo: um ladrão roubou a carteira de uma senhora. Aí toda a gente gritava: cójalo, cójalo! Uma vez preso, porém, muita gente começava a dizer: no, suéltelo, suéltelo! Deixe-o ir. Isto é, de alguma maneira, a sociedade sentia que a situação era tão injusta que a polícia não tinha nem autoridade moral nem legitimidade para poder prender e castigar esses delinquentes. Mas a atitude mudou nestes últimos tempos. As pessoas precisam respeitar um governo, e não temê-lo. Nesse sentido, o papel do Estado é estar presente, em todos os cantos da cidade. Que não haja rincões que fiquem à margem. Essa presença não se refere só à polícia, mas a projetos de educação, saúde e demais serviços sociais, atendendo a todas as tarefas que deve atender. Afinal, segurança não é só assunto de polícia.

Que outros campos estão envolvidos?

É muito mais. Tem a ver com urbanismo, mobilidade urbana e cultura. Ao construir uma biblioteca imensa e maravilhosa, queremos dizer: o conhecimento é mais importante que o dinheiro. É complicado, porém, ver um jovem numa moto, com joias, roupas e tênis caros, talvez vindos do tráfico, entrando com uma gangue em um bairro. Que símbolos são esses? Expressam valores dos narcotraficantes: você pode ostentar riqueza, independentemente da origem do dinheiro. Devemos mostrar outros valores. É preciso ter conhecimento e cultura, como a arte e a música. Então devemos ter bibliotecas lindas e colégios espetaculares nos bairros mais pobres, para que aquelas crianças saibam que elas importam – nas periferias, muitas crianças nem sabem a identidade do pai, então é essencial que saibam que elas importam. Outro exemplo são os ginásios esportivos. Em Bogotá, assim como em São Paulo, imagino, as crianças gostam de futebol. Bogotá e Londres têm 8 milhões de habitantes. Mas os londrinos têm mais de 1.500 campos de futebol públicos. Nós só temos 20. Vi que uma das ações mais eficazes para melhorar a segurança num bairro periférico é um campo de futebol, comunitário e iluminado. Que pode fazer um jovem de 16 anos às 8 horas da noite na periferia? É preciso ter opções de lazer. É preciso ter mais e melhores centros culturais e esportivos comunitários, ciclovias, parques arborizados, ruas iluminadas. Mas também é preciso ter a polícia. Sociedades ricas e avançadas socialmente, como França e Suíça, têm mais policiais por milhão de habitantes que Bogotá e São Paulo. Mas eles são bem treinados e bem pagos. Na Colômbia e no Brasil também há muita impunidade para os delitos considerados “menores”. Isso porque não investimos em policiais, juízes, presídios e leis que se voltem para esses delitos “menores”. Essa sensação de impunidade é terreno fértil para o crime organizado.

Nessa linha, que medidas foram adotadas em Bogotá?

Nas zonas mais marginais da cidade, construímos bibliotecas, colégios de luxo, jardins sociais, programas de nutrição, projetos de infraestrutura. Uma das principais ideias era levar escolas, tão boas quanto os melhores colégios particulares, para os cantos mais pobres da cidade. Queríamos mostrar respeito pela dignidade humana. Se o Estado não respeita a vida humana, por que os bandidos o fariam? É uma questão de igualdade, o que é muito diferente de simplesmente dar esmola aos mais pobres. Uma cidade precisa de símbolos de igualdade e de democracia. Numa sociedade como a nossa, muitos cidadãos não têm carro, mas precisam se deslocar diariamente para trabalhar, por exemplo. Então adotamos o TransMilenio, um sistema de ônibus inspirado no modelo de Curitiba, e construímos centenas de quilômetros de ciclovias.

Por quê?

Para dizer que um cidadão numa bicicleta de US$ 30 é tão importante quanto um cidadão num carro de US$ 30 mil. Outro exemplo: a duas quadras do palácio presidencial, tínhamos 23 hectares da pior degradação humana possível e imaginável, um inferno de casas abandonadas por décadas e dominado pelo tráfico de drogas, com os mais altos índices de homicídio do mundo. A cracolândia de São Paulo? É um paraíso comparado ao que existia ali. Não é nem remotamente parecido. Desapropriamos essa área, demolimos mais de 600 construções, iniciamos um megaprojeto de reabilitação. O inferno virou um imenso parque.

Mas Bogotá não é uma cidade ideal…

Não. Fizemos muito, mas ainda falta muito, muito, muito. Ainda sobre segurança, o índice de homicídios é de 17 para 100 mil habitantes. (Segundo o relatório das Nações Unidas de 2011, São Paulo tem 10 homicídios por 100 mil habitantes). Mas em capitais europeias, são 3 ou 4. Em cidades japonesas, talvez 1 ou 2. Em Bogotá, ainda há muitos delitos, como os assaltos, muitos à mão armada, que continuam com índices altos e se agravaram nos últimos tempos. Segundo as estatísticas, uma em quatro pessoas já foi vítima de um delito no último ano. Há muitas gangues e muita violência entre os jovens. Mas a cidade está aí para ser ocupada. Não dá para viver com medo, sem sair de casa, dentro dos carros e dos shoppings. Infelizmente, os shoppings nas grandes cidades do mundo em desenvolvimento, inclusive Bogotá e São Paulo, foram substituindo o espaço público como lugar de encontro. Isso é gravíssimo, pois os espaços públicos acabam abandonados. Segurança tem a ver com o desenho urbano, com uma melhor integração entre o público e o particular. O interesse público deve prevalecer sobre o particular, para mostrar que há democracia. Uma cidade deve se destinar especialmente aos mais vulneráveis – as crianças, os velhos, os pobres – e não aos carros, aos privilegiados, aos ricos.

No Brasil, cidades de São Paulo e Santa Catarina estão assistindo a ações atribuídas ao PCC. Que espaço tem o crime organizado nas cidades colombianas hoje?

Vivemos uma guerra de muitos anos contra megaorganizações criminosas. Mas a guerrilha não conseguiu penetrar nas cidades – exceto nos tempos de Pablo Escobar com os grandes cartéis de Medellín e Cali. A guerrilha e o crime organizado, apesar de muito poderosos, ficaram na zona rural e na selva. Para estar alerta contra o terrorismo do narcotráfico, os serviços de inteligência do Exército e da polícia colombiana devem ser extremamente sofisticados. Além disso, os cidadãos colaboram com a polícia nos bairros. Há muitos informantes, o que é essencial para os serviços de inteligência: ter olhos em cada bairro, em cada rua. As comunidades dos bairros populares são organizadas, com líderes importantes, que impedem a entrada fácil de líderes delinquentes.

No Brasil, muitos assaltos e crimes são cometidos em motos, tanto que há quem defenda o fim das garupas, como em Bogotá…

Não gosto dessas medidas, pois me parecem preconceituosas. Sim, as motos devem cumprir as normas de trânsito, com sanções drásticas se não o fizerem. Em Bogotá tivemos essa restrição de passageiros nas garupas por um tempo, mas não mais.

Por que a violência urbana é tão forte nas cidades latino-americanas?

A criminalidade e a violência urbana são fenômenos principalmente latino-americanos. Não de toda a América Latina – no Chile, não é assim. Também há cidades africanas muito violentas. Mas na Europa, no Canadá e na Ásia, por exemplo, não há. É óbvio que há crimes, mas jamais na mesma escala. A violência urbana é um reflexo da falta de legitimidade do Estado e da ausência de uma sociedade forte. Em muitos países latino-americanos, a sociedade se resignou a tolerar a criminalidade. Então, a lei praticamente a tolera. Mas há muitas metrópoles mundiais muito seguras: Copenhague, Tóquio, Toronto, Zurique.

Que sugestões o sr. teria para São Paulo?

É preciso olhar para a cidade. Como disse, a cidade precisa priorizar o humano, em todos os sentidos. Parece muito óbvio, eu sei. Mas, infelizmente, isso não é feito. Já visitei São Paulo muitas vezes. É uma cidade com uma energia maravilhosa, mas há muito a melhorar. Aliás, com todo o respeito, não me parece que tantos helicópteros particulares sobrevoando São Paulo sejam úteis para construir legitimidade e coesão social. Em cidades como Londres e Nova York, os ricos usam transporte público e vão aos parques. São Paulo precisa de bibliotecas, ciclovias, parques. Conheci uma iniciativa ótima de vocês: o Sesc, um exemplo de integração comunitária. O Sesc Pompeia é ótimo. Mas um certamente não basta. Em uma cidade do tamanho de São Paulo, é preciso ter mais de 300 Sescs.

* ENRIQUE PEÑALOSA: ECONOMISTA E HISTORIADOR COLOMBIANO, PH.D. PELA UNIVERSIDADE DE PARIS. FOI PREFEITO DE BOGOTÁ (1998-2001)

Programa Toopedalando é reconhecido nacionalmente

Por Jornal do Oeste

O programa TooPedalando, deu a Toledo mais um prêmio. O município foi vencedor do VIII Prêmio Selo Cidade Cidadã, organizado pela Câmara dos Deputados. O município venceu na categoria populacional de 60.001 até 499.999 habitantes e grupo temático A (o transporte e o trânsito no desenvolvimento e na mobilidade urbanos).

O programa Toopedalando já tinha sido selecionado como uma das experiências mais exitosas para a Conferência Rio Mais 20, tendo sido exposto durante o evento em estande da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP). O novo prêmio, o Selo de Cidade Cidadã 2012 será entregue em Brasília, no dia 13 de dezembro, quando também serão premiados os demais municípios nas suas respectivas categorias.

“O Toopedalando é um programa que valoriza a utilização da bicicleta como meio de transporte alternativo limpo. É um programa inteligente, de baixo custo que traz mais saúde e mais qualidade de vida aos usuários. A premiação mostra que Toledo que está no caminho certo ao investir em um programa como este, de baixo custo, que reduz impactos ambientais e que traz mais qualidade de vida e saúde às pessoas”, destacou o prefeito de Toledo, José Carlos Schiavinato.

Implantado em 10 de novembro do ano passado, o programa Toopedalando conta com cinco estações estrategicamente espalhadas na cidade e 65 bicicletas. Elas são divididas entre as cinco estações (nos dois extremos da avenida Parigot de Souza, rodoviária, Parque Ecológico Diva Paim Barth e Praça Willy Barth) e para reposição. A utilização é gratuita, mas o usuário deve fazer um cadastro prévio. Ele recebe um cartão magnético, que permite o desbloqueio da bicicleta em qualquer uma das estações.

A aceitação do programa, segundo o secretário municipal de Segurança e Trânsito, João Vianei Crespão, é excelente e os atos de vandalismo inicialmente registrados caíram a praticamente zero. “Hoje o programa funciona muito bem, com cidadãos de bem utilizando um serviço gratuito oferecido pela administração pública à população”, comenta.

Além do investimento nas bicicletas e nas estações, o município implantou ciclovias e ciclofaixas, interligando parques e principais ruas centrais. Ao todo são cerca de 30 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, oferecendo mais segurança à população. Quatro das cinco estações estão interligadas por ciclovias e ciclofaixas e o último trecho, do Parque Ecológico à Praça Willy Barth está com o projeto pronto. Também estão interligados por ciclovias dois dos principais parques de Toledo, o Ecológico com o Parque do Povo.

Em função da cultura e do clima, a maior utilização das bicicletas do Toopedalando tem sido para lazer, principalmente nos finais de semana e após as 18h.

O Programa Ciclovida e
a Invasão das Bicicletas


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